Fellipe Venturino: “a questão de dizer que alguma coisa é errada, é muito complexo”

Um dos pioneiros em lidar com a ginástica dentro do CrossFit, Fellipe Venturino abriu as portas de sua escola a CWB Ginástica para nossa equipe. Responsável por ajudar o desenvolvimento de grandes atletas do CrossFit, como Gui Malheiros  eLari Cunha. Felipe bateu um papo franco com nossa equipe e falou sobre a positividade do e as diferenças entre o CrossFit e a Ginástica Artística. Acompanhe:

Qual o pensamento da CWB?

CWB é uma escola de ginástica, onde ensinamos as derivações do treino ginástico. Assim, aqui a gente treina toda a base do treino corporal que um ginasta tem que ter. A gente vem da ginástica artística e assim, unimos isso de uma maneira que o treino possa abrir um leque que serve para o pessoal que trabalha o CrossFit, treinamento funcional, yoga, polifitness, até natação e esportes que são convencionais. Então hoje o espaço trabalha com a ginástica, mas a idéia é que ele pense no treino ginástico como um auxílio para a estrutura dos demais esportes.

Qual a grande diferença entre o CrossFit e a Ginástica?

O que eu noto é que o CrossFit pegou algumas técnicas ginásticas para adaptar no seu modelo de movimento competitivo e estrutural de aula. Por exemplo, as puxadas que são trabalhadas na ginásticas são no modelo de força (strict). A gente acaba trabalhando com uma estrutura onde o modelo não é feito para ser cíclico. Então, não é feito para ser emendar uma grande quantidade do mesmo movimento. Então na ginástica a gente vê isso, os movimentos são feitos com uma técnica desenvolvida dentro de uma série (com outros movimentos) para ter um valor. Assim ele será julgado quanto a sua maestria e desenvolvimento técnico e de execução.

No CrossFit não, como o sistema técnico e competitivo é um sistema onde você precisa ter um volume grande e um velocidade maior de um mesmo exercício sendo executado. Essas estruturas acabam necessitando de algumas modificações para poder se encaixar nesse modelo. Então o que eu vejo hoje é que o CrossFit pegou algumas técnicas que temos hoje na ginástica e adaptou elas para que atendesse a exigência dos modelos estruturais do CrossFit.

Essa maneira do CrossFit é errada?

A questão de dizer que alguma coisa é errada, é muito complexo. Porque se fizermos um paralelo entre a ginástica desportiva e o CrossFit, existe uma diferença de execução para adaptação do movimento. Esses dias estávamos ensinando a fazer o Ring Muscle Up e um aluno perguntou: “está errado usar o quadril?”. Então eu vi que não havia certo ou errado e sim adequação. Vamos pensar que dentro do CrossFit o atleta irá fazer um sequência de Muscle Up e uma sequência de levantamento de peso. Isso acaba desgastando muito o ombro. Assim, tornasse mais lógico que a gente possa jogar para outro grupamento muscular a solução primária daquele movimento. Assim não desgatando o músculo em questão. Então falar que uma técnica esta errada, muitas vezes é a questão de adequação. Eu posso usar três maneiras diferentes de fazer o Muscle Up pensando em combinações para que o atleta consiga ir melhor e mais rápido na execução.

E em relação a muitos movimentos de ginástica trazerem lesões dentro do CrossFit?

Tem a vertente do que é o lesivo. Como estudamos na ginástica e preparamos nosso corpo por muitos anos, essa questão acaba sim soando como errado. Mas também o CrossFit é algo novo, ainda está sendo estudado e tem ainda muita coisa tecnicamente para ser desenvolvido. Um exemplo deles é o Butterfly. Podemos entender que é um exercício que da uma agilidade muito boa para grandes repetições de Pull Up. Porém essa técnica, eu sempre falei, que não precisava tirar ela do CrossFit. Mas precisa ser melhorada, para perder essa questão lesiva.

Greg Glassman era ginasta, acredita que por isso e por termos atletas da ginástica, como Arthur Zanetti, entrando para o CrossFit, possa ter essa evolução da técnica que você resalta?

Acho uma possibilidade, mas não uma realidade. São pessoas que vem da ginástica e trazem esse conceito, que entendem a técnica com outro viés. Assim, acho que pode ser uma contribuição bacana. Mas é importante destacar a importância do Crossfit como esporte. Porém, em sua maioria, o que infelizmente ainda vemos muito são profissionais que “metem o pau” no Crossfit sem entender mais. Eu, na verdade, eu consigo vê-lo com o olhar de alguém que assiste um nascimento, ainda veremos erros e acertos. Acho que os profissionais dos esportes convencionais que queiram trabalhar com os profissionais e atletas de Crossfit devem olhar além da parte comercial e financeira, buscando auxiliar o desenvolvimento técnico dos treinadores e atletas, respeitando sua autonomia e especificidade. Dessa maneira, criamos os cursos e a Academia de Treinadores da CWB, onde desenvolvemos um conteúdo teórico e prático completamente especializado para esta demanda. Porém, sem perder a base fundamental da qual é feita a Ginástica.

Apenas quem começa a treinar cedo pode se desenvolver adequadamente?

Essa é uma pergunta bem bacana. Porque hoje a gente tem muita tecnologia de treino voltada para o desenvolvimento de atletas adultos, em determinadas áreas. Então há um tempo atrás um adulto que visse um rapaz fazendo movimentos na argola, não se aventuraria. Afinal, ele diria que para fazer aquilo ele deveria começar cedo. Porém hoje isso mudou, a tecnologia dos treinamentos trouxe essas pessoas a se aventurarem.

A gente poderia destacar então um fato desses como um ponto positivo para o CrossFit?

Sim. Inclusive, as pessoas falam muito da questão de lesão. Eu sempre digo as pessoas , hoje o CrossFit é um dos esportes com o maior volume de pessoas na área fitness.  Assim, é mais do que comum que o número de pessoas que possam se lesionar seja grande. Mas não que o CrossFit é lesivo. Eu trabalho com atletas do cross, assessoramos a CrossFit Cavaleiros, casa do Gui Malheiros. Então hoje eu vejo muitos mais pontos positivos do que negativos dentro do CrossFit. A questão de podermos colocar pessoas mais velhas para dentro do esporte é muito positiva.

Pode se usar o CrossFit como preparatório para a ginástica?

Seria possível para desenvolver capacidades funcionais, no sentindo como emagrecimento, por exemplo. Não diria que seria o ideal, mas é sem dúvidas uma possibilidade. Na realidade, o contrário acaba sendo mais apropriado. Assim pegar a ginástica como sendo um dos pilares para o CrossFit. Aliás a ginástica é também um preparatório para os demais esportes. Nos Estados Unidos tanto a ginástica como o LPO é trabalhado para estruturar para os demais esportes.

Por que temos uma diferença ainda tão grande dos americanos?

Se pararmos para analisar, nos Estados Unidos, desde novos, os americanos utilizam a ginástica e o Levantamento de Peso como parte de um treinamento para outros esportes. Assim, é necessário ver o perfil de egresso deles. Já no Brasil, a nossa consciência muscular é da musculação ou de treinamentos funcionais. Isso tudo conta muito. Por isso, o que temos que fazer primeiro é criar essa consciência corporal que eles tem. Isso é muito bacana, mas precisa ser olhado com cuidado. Eu vejo o CrossFit como uma das grandes invenções do treinamento. Mas como qualquer invenção, vai se adaptando e evoluindo. Muita gente fala mal, mas acho que pelo contrário, a gente precisa participar disso.

O CrossFit foi um chamariz para a ginástica e para o LPO?

Completamente, acho que para a ginástica foi ótimo. Hoje você encontra aqui adultos querendo fazer aula de ginástica. Algo completamente impossível de se achar antes do CrossFit. Cansei de chamar os pais e receber não, hoje esse discurso mudou. O CrossFit trouxe uma parte comercial muito boa. Ainda mais para o LPO, que a gente quase não via academias, eram sempre escondidas no porão. Então, até mais do que para a ginástica, o CrossFit ajudou muito o LPO.

Um atleta de LPO ou Ginástica leva vantagens dentro do CrossFit?

Acho que ela leva uma vantagem quanto aos fundamentos. Mas é aquela velha historia, ginástica é ginástica, LPO é LPO e CrossFit é CrossFit (risos). Mas é um bom perfil de egresso. Agora a gente tem que entender que há uma adaptação. Assim, não quer dizer que um campeão de ginástica será um campeão do Games por exemplo. Porque existem outros fatores e especificidades especificas. Um levantador de peso, levanta um peso enorme uma vez e vai descansar. Então, isso não significa que ele vá conseguir manter um movimento cíclico de levantamento de peso no CrossFit. Porém, o que é importante é que essas modalidades trarão uma grande gama de conhecimento, até corporal que irá inclusive evitar as lesões. A Lari Cunha é um excelente exemplo de uma atleta que saiu da ginástica.

Entre a corrida, o LPO e a ginástica. Qual deles é o ideal para ter como base para o CrossFit?

Simples, um atleta de atletismo pode ser um bom levantador de peso e vice e versa. Porém, atleta de ginástica tem a capacidade motora e funcional para todos os esportes, pois a ginástica é um esporte primário. Na realidade, a ginástica é o estudo da Engenharia do Movimento Humano. Para tudo que inclua o movimento. Uma prova disso é o lutador George Saint Pierre, quando ele foi perguntando por um repórter sobre os motivos de estar treinando em um ginásio e não na academia de luta, ele falou: “se você pedir para qualquer atleta fazer um movimento de ginástica ele não irá conseguir. Porém peça para um ginasta fazer qualquer movimento que você vai entender”(risos).